"Somente a Razão Impede o Homem de Voar"

sábado, 30 de novembro de 2013

N'OUTRO DIA


N'outro dia, me vesti de tristezas,
Não era mais feita de carne, era feita de lágrimas,

Chorei um rio de amarguras e incertezas,
Oceanos de solidão,

Me permiti a dor,
Me permitir o sofrer.

Depois raiou o sol, e novamente levantei,

Neste dia me vesti de esperança,
O calor fez evaporar as lágrimas de outrora,

Secou meu corpo e trouxe vida para minha alma,

Me permiti sorrir, me permitir viver.
Andei por vales floridos,

Deitei-me na relva, senti as gotas de orvalho tocarem meu corpo,
Senti a vida em mim, latejando, pulsando como um coração aberto,

Senti o desejo de seguir em frente, de ver o que o amanhã haveria de reservar,
Senti prazer em estar viva.

Então, de repente, notei que viver não era mais o bastante,
Neste dia me vesti de sonhos,

Eu desejava mais que tudo ser completa,
Ser descaradamente feliz,

Eu queria não somente viver, eu queria me sentir extasiada,
Desmedidamente saciada,

Eu queria gozar de realizações plenas.
No caminho, percebi que embora esperançosa  e sonhadora,

Ainda faltava algo em mim,
Por um segundo parei e senti a brisa tocar o meu rosto como se fosse um beijo de Deus,

Neste dia, me vesti de amor,
Do mais puro e genuíno amor,

Neste dia estendi minha mão aos que estavam caídos,
Dediquei meu tempo a ajudar a quem precisava,

Ajudei aos velhos e aprendi com eles,
Ensinei as crianças e sorri com elas,

Alimentei aos famintos,
Visitei os doentes,

Sentei-me com os loucos e compartilhei com eles a magia da insanidade,
Tantos passaram pela minha vida,

Muito deixaram de si e também levaram de mim tudo o que eu tinha de melhor para oferecer,
Não senti pena de nenhum deles, apenas amor,

E assim, a cada passo fui aprendendo a ser generosa,
Fui aprendendo a viver na mais plena alegria, pois o amor havia inundado a minha alma,

Aprendi assim a amar o próximo e a amar a mim mesma.
Neste dia não me restou nada mais a não ser vestir-me de gratidão,

Gratidão por estar viva, por tudo que vivi ao longo deste extenso caminho,
Por tudo o que aprendi, por tudo o que ensinei,

Por tudo o que chorei, por tudo o que sorri,
Por tudo o que vivi,

Minha gratidão transbordou a minha alma,
Gratidão por aprender que cada passo é um novo começo,

Gratidão por ser, e não por ter,
Senti uma enorme gratidão pelo milagre da vida que se renova a cada segundo,

Neste dia, não vesti algo novo,

Fiz um manto com várias partes  do que antes eu já havia vestido,

Vesti-me então de tristeza, esperança, sonhos, amor e gratidão.

Tristeza faz parte do nosso ser, esperança é o que nos nutre, sonho é o que nos renova, amor é o que nos mantém humanos e gratidão é o que eleva a nossa alma.

Foi assim que eu passei a me vestir de vida, todos os dias.

Um comentário:

Roseli Pedroso disse...

Que lindo Sabrina! Quanta sensibilidade, quanta vida há nesse poema que expressa tão bem de que matéria somos revestidos. A humanidade é uma colcha de retalhos exatamente como você cozeu tão bem através das palavras. Parabéns!